Síntese: Raça taurina (Bos taurus taurus), continental, de origem francesa e pelagem branca-creme. Chegou ao Brasil no final do século XIX, tendo seu primeiro registro genealógico em 1927. Consagrou-se mundialmente por sua eficiência alimentar, rápido crescimento, elevada capacidade de ganho de peso e de produção de carcaças pesadas, além do elevado rendimento de carcaça e de cortes ao abate, tanto em animais puros quanto cruzados. No Brasil, passou por um importante processo de “modernização” nas últimas décadas, apresentando atualmente animais de menor peso ao nascer, porte moderado, mais precoces, adaptados e funcionais.

Origem
Na classificação zootécnica das raças bovinas, o Charolês é considerado atualmente uma raça “continental”, grupamento de raças taurinas originárias da Europa continental e caracterizadas, desde sua origem, pelo grande porte, provenientes, em especial, de países como França, Suíça, Itália e Alemanha, entre outros. De acordo com Elias (2006), a origem da raça é a França, mais precisamente o vale de Arconce, em Charolais-Brionnais, no departamento de Saône-et-Loire, distrito de Charolles, onde se desenvolveu a partir do século XVIII, inicialmente como animal de tração. O Herd Book Charolais (França) descreve que, entre 1864 (século XIX) e 1920 (século XX), a utilização do gado Charolês como raça de carne e trabalho direcionou a seleção para um tipo de animal musculoso, de grande porte e sem tendência à deposição excessiva de gordura. Essas características mostraram-se particularmente importantes para a especialização da raça, que, a partir de 1920, passou a ser exclusivamente voltada à produção de carne.

História
Uma das hipóteses da formação da raça Charolesa é a história de um gado nativo de cor creme que habitava a região de Charolais, na parte central da França, entre os rios Loire e Saone. A raça ancestral provavelmente apresentava muitas características comuns ao gado Simmental da Suíça e da Alemanha, todos descendentes do Bos t. frontosus. Estes animais foram descritos na literatura em várias ocasiões: Júlio César mencionava os bovinos brancos do centro da França, no livro “De Bello Gallico”. O rei Luis (“el Tartamudo”), em 878 d.C. mencionava a vila Bogenis que, na língua céltica, significava “boi branco”. Antônio Malteste em 1569 escrevia que a região de Charolais produzia grande quantidade de bois e vacas de peso considerável a tal ponto que pouco se utilizavam cavalos, mulas ou asnos nos trabalhos.

De acordo com a associação francesa/Herd Book Charolais, que detém o registro genealógico até hoje, o local de criação original da raça é o Vale do Arconce (Vallée de l'Arconce), que fica exatamente no coração geográfico da região de Charolais, cortando a própria cidade-sede de Charolles. A cidade de Charolles, localizada a aproximadamente 100 km a noroeste de Lyon, foi a capital histórica do Condado de Charolais, local que deu nome à raça. Conforme descreve Patrimoine Charolais-Brionnais ([s.d.]), no século XVIII, a raça Charolês espalhou-se gradualmente para outras regiões, principalmente para Nièvre (correspondente, em grande parte, ao antigo Nivernais), uma parada na rota para Paris, onde alguns criadores de gado iam vender seus animais.

Os pioneiros foram o criador Claude Mathieu e seus filhos, que se mudaram de Oyé, na região do Charolais-Brionnais (área que hoje corresponde ao departamento de Saône-et-Loire, na região de Bourgogne-Franche-Comté, na França), para o Nivernais em 1773. Os resultados obtidos por Mathieu foram tão positivos que seu exemplo passou a ser seguido por outros criadores que, assim como ele, haviam se estabelecido no Nivernais, bem como por agricultores de toda a região. Numa segunda fase, com a expansão da raça pelo Nivernais, desenvolveu-se o “tipo” “Nivernês”, mantido e selecionado na região de Nevers por um membro da família Mathieu. Ali o gado recebia o nome de “Charolês Nivernês” (ou raça “Charolesa-Nivernesa”), que se tornou sinônimo de excelência em toda a Europa. Com a expansão do sistema de criação em pastagens nos departamentos de Nièvre e Cher, o gado branco Charolês difundiu-se por essas áreas, a exemplo do trabalho realizado pelos criadores Jacques Chamard e Louis Massé.

No início do século XIX, os criadores Jacques Chamard e Louis Massé tiveram importante participação no aprimoramento do gado Charolês. Massé, que iniciou seu trabalho em 1822 com animais provenientes dos rebanhos dos produtores Chamard e Ducret (também de Nièvre), obteve importantes avanços em precocidade e aptidão para a produção de carne por meio de seleção, consanguinidade e melhorias na alimentação e no manejo, sem que se tenha comprovado a utilização de Durham (Shorthorn) em seu rebanho. Paralelamente, outros criadores experimentaram o cruzamento do Charolês com o Shorthorn, buscando principalmente maior precocidade e aptidão para carne.

Diferentes autores descrevem a utilização da raça Durham (Shorthorn) no Nivernais, sobre a população Charolesa que havia sido levada para aquela região. De acordo com algumas publicações, 1823 marca a primeira experiência documentada, realizada por Brière d’Azy (BOYER, 2020, p. 79), enquanto, por volta de 1830, o conde de Bouillé iniciou uma utilização mais sistemática da raça em cruzamentos com o gado Charolês.

Embora a raça Charolês tenha sido reconhecida como raça pura em 1770, foi mantida nesse estado de pureza até 1830. De acordo com o Herd Book Charolais – Charolais France, como a precocidade de engorda sempre esteve entre os principais objetivos dos criadores de gado de corte, que buscavam reduzir a idade de abate e o custo de produção, o conde de Bouillé introduziu bovinos Shorthorn brancos, em 1830, para utilização em seu rebanho Charolês, situado em Villars (Nièvre). O cruzamento realizado, que continuou até 1843, deu origem à raça “Nivernaise”, caracterizada por animais que possuíam qualidades notáveis de precocidade e capacidade de engorda. Devido às diferenças perceptíveis em características raciais e de conformação apresentadas pelos descendentes, era possível identificar o cruzamento. Na história descrita pelo Herd Book Charolais (França), esses animais eram menos rústicos, mais exigentes, apresentavam maior deposição de gordura e menor capacidade de trabalho. De acordo com George (1911), ao nome “Nivernaise” acrescentou-se posteriormente o nome “Charolaise”, tanto para recordar sua origem quanto para indicar a frequente tendência de retorno às características em sua forma original. Assim, esse gado passou a ser chamado de Nivernaise-Charolaise.

Como aponta o Patrimoine Charolais-Brionnais ([s.d.]), a engorda de gado tornou-se comum no Brionnais durante a segunda metade do século XIX, enquanto as fazendas de criação se desenvolveram no Charolais. Nesse contexto, a criação e a seleção realizada no Charolais-Brionnais ocorreu predominantemente em raça pura, em contraste com algumas experiências de cruzamento com a raça Durham (Shorthorn) realizadas no Nivernais durante o mesmo século (GEORGE, 1911).

Havia dois registros genealógicos (Herd Books): o do Nivernaise-Charolaise, fundado em 1864 pela Sociedade de Agricultura de Nièvre, em Nevers, sob a denominação “Race bovine charolaise améliorée de la Nièvre, dite race nivernaise” (“Raça bovina Charolesa melhorada de Nièvre, conhecida como raça Nivernesa”), e o “Herd Book Charolais”, criado em 1887 pela Sociedade de Agricultura de Charolles em Saône-et-Loire sob a atuação de Jean-Baptiste-Augustin Bouthier de Rochefort, deputado pelo distrito de Charolles, como explica o Patrimoine Charolais-Brionnais ([s.d.]). Conforme descreve a associação francesa/Herd Book Charolais, os criadores da região de Charolles, alguns dos quais sempre encararam com grande receio o cruzamento com o Shorthorn, criaram o “Herd-Book de la race Charollaise pure” ("Livro Genealógico da raça pura Charolês"), com o objetivo de garantir a manutenção da pureza da raça e contribuir para o seu melhoramento. Em 1920, os dois livros fundiram-se em apenas um (Herd Book Charolais), com sede em Nevers, adotando-se “Charolais” como nome único para a raça. No mesmo ano, o livro foi fechado, passando a admitir somente animais cujos pais já fossem registrados.

O hábitat da raça se mantém na extensa zona de Nièvre, Saone-et-Loire, Allier, Cher, Loire, Indre, Creuse, Cote-d’Or, Vendée e Yonne. Vive em bons terrenos, em geral considerados férteis e com altitude próximas ou superiores a 1.000 metros. Segundo informações do ano de 2022 do Herd Book Charolais (registro genealógico francês), o Charolês continua sendo a principal raça bovina francesa, mantendo também esta posição de destaque entre os animais destinados ao abate.

História no Brasil
No Brasil, conforme delegação do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o serviço de registro genealógico da raça Charolesa é conduzido pela Associação Nacional de Criadores Herd Book Collares (ANC), localizada em Pelotas/RS. A Associação Brasileira de Criadores de Charolês (ABCC) foi fundada por produtores gaúchos em 15 de dezembro de 1958, de Júlio de Castilhos/RS, município que ficou conhecida como a capital nacional do Charolês. Após muitos anos sediada em Santa Maria/RS e sendo responsável pelo registro de animais puros controlados (PC), atualmente, a ABCC conduz as ações promocionais da raça e possui sua sede em Esteio no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, na região Metropolitana de Porto Alegre/RS, local onde ocorre anualmente a Expointer.

Conta a história que o veterinário Dr. Claude Marie Rebourgeon, oriundo da famosa escola Alfort e discípulo de Pasteur, foi trazido da França pelo governo imperial, em 1883, para implantar uma Escola de Agronomia (a “Imperial Escola de Medicina Veterinária e de Agricultura Practica”, mais tarde denominada de “Faculdade de Agronomia Elizeu Maciel”, considerada a mais antiga em atividade ininterrupta do país e que atualmente integra a Universidade Federal de Pelotas - UFPel) no Rio Grande do Sul, na cidade de Pelotas. O ano de 1884 foi todo dedicado à reestruturação física e à compra do material necessário ao funcionamento da escola e do instituto de vacinas anexo. De acordo com Magalhães (1983), Claude Marie Rebourgeon foi à Europa comprar o material necessário, e retornou no dia 26 de dezembro de 1884, trazendo dois touros da raça Charolês, dois cavalos Percheron, oito ovelhas e dois carneiros Dishley-Rambouillet, além de laboratórios, instrumentos de cirurgia, bibliografia especializada e sementes. Essa foi provavelmente, a primeira importação de animais da raça para o país.

Elias (2006) descreve que nessa época, Pelotas concentrava um grande número de estabelecimentos industrializados de carne no estado: as charqueadas. Contam os antigos estancieiros da região, que o gado branco ou barroso era denominado de "gado Rebourgeon". No fim do século XIX e nos primeiros anos do seguinte, a Sociedade Agrícola e Pastoril, em Pelotas, editava uma revista que tratava de assuntos agropastoris e publicava artigos assinados por “Gé de Figueiredo”, ou simplesmente “Gé”. Essa publicação, além de assuntos gerais inerentes à pecuária, costumava fazer referências elogiosas aos cruzamentos com o Charolês, quando, na época, eram praticados com as raças britânicas Hereford e Shorthorn. “Gé de Figueiredo” era o pseudônimo usado por João de Souza Mascarenhas, jovem apaixonado pelos problemas da pecuária, paixão que conservou durante toda a vida. Alguns estancieiros se interessavam pelos comentários de “Gé”, pedindo-lhe endereços de criadores de Charolês. A estes era fornecido o endereço de Anibal José de Souza, brasileiro radicado no Uruguai, com criação há tanto tempo que já produzia touros puros por cruzamento, desde o fim do século XIX.

Em 1901, “Don” Aníbal enviou a seu sobrinho, João de Souza Mascarenhas, cinco exemplares da raça, todos puros por cruzamento. Esse grupo era composto por quatro novilhas e um tourinho. Na época, João Mascarenhas não era criador, mas comerciante de gado na Estância Capão Alto, no município de Bagé/RS. Por isto, cedeu todo o lote a seu irmão Cypriano de Souza Mascarenhas, estancieiro de Júlio de Castilhos/RS, que estava procedendo cruzamentos do gado comum (Crioulo ou Franqueiro), com touros Hereford e Shorthorn, importados do Uruguai. Ao utilizar o tourinho em vacas Crioulas, percebeu que os produtos apresentavam excelente desenvolvimento. Em vista do bom resultado obtido, Cypriano encomendou a seu tio Aníbal dez touros puros por cruzamento, que foram importados em 1904. No ano de 1906, o mesmo Sr. Cypriano adquiriu mais cinquenta touros da mesma procedência. Em 1910, após resolver utilizar somente reprodutores Charolês em sua estância, encomendou outros cinquenta reprodutores. Neste ano, Don Anibal já não criava mais Charolês e por conta disto, Cypriano precisou buscar reprodutores no país de origem da raça, realizando mais duas importações de touros em 1911 e 1913. Com o advento da Primeira Grande Guerra, as importações tornaram-se impraticáveis. Elias (2006) revela que dois anos depois de terminada a guerra, em 1918, Cypriano reiniciou as importações, sempre com dois reprodutores.

De acordo com Elias (2006), Cypriano importou duas terneiras da França em 18 de abril de 1927, permitindo a abertura do registro genealógico da raça (Herd Book) na Associação do Registro Genealógico Sulriograndense, em Pelotas (atual ANC Herd Book Collares). Conforme detalha o autor, deste lote constava “Fadette”, registrada na França sob número 23391, que no Brasil recebeu o HBB 1 e logo em seguida, foram registrados os touros importados previamente. O primeiro produto puro nascido e registrado no país foi “Arara”, fêmea nascida em 20 de maio de 1928. De propriedade de Cypriano Mascarenhas, ela recebeu o número de HBB 5. Santos (1999) afirma que o primeiro animal mocho a ser registrado no Brasil foi o reprodutor “San-Cy Ministro-155”, em 1967.

Em 1922, por ocasião da Grande Exposição Nacional, realizada no Rio de Janeiro em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil, a França apresentou um plantel de 20 exemplares da raça Charolesa, posteriormente doados ao governo brasileiro e encaminhados à Fazenda de Criação de Urutaí/GO. O rebanho permaneceu e se multiplicou naquele estabelecimento. Em 1931, parte dos animais, constituída por cerca de 32 fêmeas, foi transferida para o Posto Zootécnico da Serra (Estação Experimental Zootécnica), em Tupanciretã/RS, instituição que realizou alguns trabalhos de pesquisa importantes e que contribuiu significativamente para a difusão da raça no Rio Grande do Sul. Os animais que permaneceram em Urutaí, juntamente com seus descendentes, foram transferidos, em 1936, para a Fazenda de Criação de São Carlos/SP (Embrapa Pecuária Sudeste), onde a genética Charolesa desempenhou papel fundamental nos programas de cruzamentos com raças zebuínas iniciados em 1940 pelo Dr. Antônio Teixeira Vianna para a formação da raça Canchim.

Ao longo dos anos, diversos criadores importaram animais da França. Entre os pioneiros, conforme Elias (2006) também merecem menção: Izidro Kurtz de Oliveira, coronel Quinca de Lima, Carlos Gomes de Abreu e também Pacífico de Assis Berni, entre outros. A partir de 1950, a raça acelerou seu desenvolvimento e difusão no país, até que em 1962 chegou à Bahia, através de Vitória da Conquista, expandindo-se também a Sergipe, Ceará, Maranhão e Pará (ELIAS, 2006).

As virtudes reconhecidas da raça e os resultados alcançados nos cruzamentos com o gado presente no Rio Grande do Sul (oriundo de raças crioulas, britânicas e de seus cruzamentos) impulsionaram uma expansão significativa do Charolês. Conforme dados de registros genealógicos e Santos (1999), estima-se que cerca de 75% do rebanho registrado no estado tenha chegado a pertencer à raça Charolesa, que passou a ser reconhecida como o “Gado de Prata que vale Ouro”. No entanto, ao longo dos anos, acasalamentos e critérios de seleção não alinhados às transformações da pecuária de corte acabaram desfavorecendo a raça, tornando necessária uma reavaliação e uma readequação de seu direcionamento zootécnico. Esse processo efetivamente ocorreu e foi determinante para a evolução que resultou no Charolês atual (década de 2020).

Embora a raça tenha origem francesa, pode-se afirmar que o Charolês brasileiro foi formado a partir de diversas famílias e linhagens. Ao longo das décadas, animais e doses de sêmen provenientes de diferentes países foram importados para o Brasil.

Charolês Mocho
O Charolês é, originalmente, uma raça aspada (com chifres). Porém, assim como ocorreu com outras, foram selecionados animais de caráter mocho e o Charolês Mocho foi desenvolvido. A variedade mocha tem sido cada vez mais predominante devido ao avanço da utilização das linhagens modernas da raça nos planteis puros. Além disso, seu crescimento também pode ser justificado pela maior facilidade de manejo e ao menor risco de contusões causadas pela interação entre os animais. No Brasil, de acordo com alguns relatos, o primeiro exemplar mocho da raça Charolesa surgiu nos rebanhos do pecuarista Francisco Mascarenhas de Souza Neto, na década de 50 em Júlio de Castilhos/RS. De acordo com Santos (1999), o primeiro animal mocho a ser registrado no Brasil foi o reprodutor “San-Cy Ministro-155” (San Cy Ping Pong 1 x San Cy Jaspana 20), em 1967. Em países como os Estados Unidos, Canadá e Austrália, estima-se que 99% do plantel Charolês é formado por animais mochos naturais (não amochados/descornados).

No mundo
Internacionalmente consagrada como grande produtora de carne, a raça Charolesa difundiu-se por todos os continentes do mundo. Patrimoine Charolais-Brionnais ([s.d.]) conta que uma das primeiras exportações de Charolês da França ocorreu em 1910 para a Argentina. Muito além de sua vocação como produtora de carne por excelência, a raça possui muitas características produtivas e funcionais que facilitam seu desenvolvimento e aceitação entre os pecuaristas. Pelo seu potencial, em condições adequadas é extremamente eficiente e capaz de corresponder com elevada rentabilidade a aqueles que investem em sua genética. É possível afirmar que o Charolês está presente em praticamente todos os continentes, sendo uma das raças mais utilizadas em cruzamentos no mundo.

De acordo com a Associação Britânica de Charolês, a genética da raça chegou à Grã-Bretanha em 1959. O Charolês foi a primeira raça bovina continental a ser introduzida no Reino Unido e revolucionou a indústria de carne bovina local. Ao chegar, a raça demonstrou imediatamente sua superioridade sobre as raças nativas em termos de taxa de crescimento, conformação e rendimento de carcaça. A British Charolais Cattle Society foi oficialmente estabelecida em 27 de julho de 1962, sendo que o primeiro bezerro macho da raça a nascer na Grã-Bretanha foi registrado em 1º de janeiro de 1967.

Já na América do Norte, os primeiros bovinos da raça Charolês chegaram desembarcando no México, em 1919. Em 1934 ocorreu a primeira importação de Charolês do México para os Estados Unidos, ocorrendo na década de 50 primeiro registro. Por outro lado, segundo Santos (1999), em 1965, o Canadá passou a importar animais da França. A partir de 1955 a Argentina importou mais de 1.400 cabeças, sendo que muitos desses animais foram reexportados para o Brasil.

Na África do Sul, após excelente adaptação, o Charolês alcançou um ótimo padrão zootécnico e tem sido adotado para a utilização em cruzamentos industriais. Já na Austrália, é considerada uma das raças de corte mais importantes, onde é famosa por sua capacidade de aumentar a lucratividade da produção de carne. Segundo a Charolais Society of Australia, o Charolês foi a primeira raça europeia a chegar no país, por meio da importação de sêmen do Reino Unido em 1969. O primeiro bezerro filho de um touro Charolês nasceu em 7 de janeiro de 1970, na propriedade "King River", em Albany. No início da década de 1970, animais vivos da raça Charolês foram importados da Nova Zelândia, país que já tinha acesso à genética britânica.

Novo direcionamento zootécnico no Brasil
O atual Charolês brasileiro (década de 2020) apresenta uma evolução visível em seu biotipo, com maior precocidade sexual e, acima de tudo, maior precocidade na deposição de gordura na carcaça (rápido acabamento), característica relevante para uma pecuária de ciclos produtivos mais curtos.

Já no início dos anos 2000, os criadores e o corpo técnico da Associação Brasileira de Criadores de Charolês (ABCC) deram início a um processo de seleção visando ao aprimoramento de características funcionais importantes para as condições de criação no Brasil e à obtenção de animais capazes de produzir carne com características condizentes com as tendências do mercado consumidor. O enfoque em características como a precocidade sexual e de acabamento exemplifica o novo direcionamento dos critérios de seleção e foi fundamental para que se chegasse ao atual Charolês brasileiro.

Tamanho corporal e estrutura óssea moderados, pelame mais curto, menor peso ao nascer (facilidade de parto), maior capacidade de produção de leite das matrizes e caráter mocho também passaram a receber mais atenção no melhoramento da raça nas últimas décadas, mas sem deixar de lado a vocação natural do Charolês para a velocidade de crescimento e o ganho de peso. Vale ressaltar, sobretudo, o enfoque dado à obtenção de animais precocemente prontos para o abate (dente de leite a dois dentes), com carcaças pesadas (acima de 240 kg) e cobertura de gordura de 3 a 10 mm, ou seja, com acabamento mediano a uniforme. Esta ênfase justifica-se pelo fato de que a deposição de gordura de cobertura, relacionada ao acabamento da carcaça, é muito importante para a indústria frigorífica, pois proporciona proteção contra a rápida e intensa queda de temperatura nas câmaras frias, que pode provocar perda de maciez da carne em carcaças com acabamento escasso. Além de favorecer a qualidade dos cortes na desossa, o acabamento de gordura da carcaça também costuma ser um critério que influencia a remuneração dos produtores.

A incorporação de linhagens já existentes com esse perfil, como as norte-americanas, foi um dos caminhos para acelerar esse processo, além do trabalho de seleção realizado há muitos anos dentro das propriedades. Dessa forma, já na década de 2010 chegou-se a um Charolês evoluído em diversos aspectos, após um longo caminho com orientação técnica, responsabilidade com a raça e planejamento. A experiência com o Programa Carne Charolês Certificada, em 2015, no estado de Santa Catarina, por exemplo, possibilitou constatar na prática o aprimoramento zootécnico da raça, evidenciado pela elevada qualidade e quantidade de carne produzida pelos exemplares puros e cruzados. O comportamento do mercado e dos consumidores só confirmou a ótima aceitação do produto, comparável à das mais conceituadas marcas de carne do país.

Com os efeitos desse processo já perceptíveis nos resultados a campo e em confinamentos, é possível afirmar que o Charolês selecionado no Brasil está apto a contribuir para uma pecuária de corte moderna, que prima pela eficiência e pela qualidade.

Promebo
O PROMEBO®️ - Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne, conduzido pela Associação Nacional de Criadores Herd Book Collares (ANC), celebrou em 2024, 50 anos de contribuições significativas à pecuária brasileira. Trata-se do programa de melhoramento genético oficial do Charolês no Brasil, com importância inestimável na evolução da raça. A primeira edição do sumário de touros, trazendo as DEPs dos principais touros pais foi publicada em 1991. Os resultados das avaliações genéticas são atualizados semanalmente e divulgados também no Sumário de Touros e Ventres, lançado anualmente no mês de julho. As 14 características avaliadas na raça são: Peso Ao Nascer (PN); Ganho de Peso do Nascimento a Desmama (GND); Ganho de Peso da Desmama ao Sobreano (GDS); Ganho de Peso do Nascimento ao Sobreano (GNS); Conformação, Precocidade, Musculatura e Tamanho (C, P, M, T); Pelame (Pm); Perímetro Escrotal (PE); Área de Olho de Lombo (AOL); Espessura de Gordura Subcutânea (EGS); Espessura de Gordura Medida na Picanha (EP8) e Gordura Intramuscular (Gim). Entre 2019 e 2025, a adesão de selecionadores de Charolês ao Promebo alcançou incremento de 950%.

Evolução na característica peso ao nascer
Dados fenotípicos oriundos do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo), demonstram que entre 1990 e 2025 houve redução significativa do peso ao nascer médio dos animais da raça, sendo que, em 2025, as fêmeas apresentaram redução de 17,9% em relação ao pico registrado em 2004 e os machos, de 20,1% em relação ao pico registrado em 2001. Trata-se de uma característica de correlação direta com facilidade de parto e com a taxa de sobrevivência perinatal, fatores que influenciam a viabilidade e a rentabilidade dos sistemas produtivos. Tais dados comprovam a efetividade do processo de seleção e do melhoramento genético realizado pelos criadores brasileiros, que buscam continuamente, a adequação zootécnica da raça às necessidades de uma pecuária cada vez mais eficiente e lucrativa.


- Atualizado em Agosto de 2026.

Referências



COMPARTILHE: